sexta-feira, 8 de Maio de 2009
terça-feira, 21 de Outubro de 2008
Juras que o sal não pede perdão e apenas refresca a vontade do ouro, ancorada nesse limiar doce a que chamamos degelo.
Corres pela estrada e não olhas para o fogo, nem ameaças as lanças da menina selvagem que julgaste perder. Queres tudo, como se a boca coubesse num trago, no nosso lume de amor; e a vida acontece na nudez do teu corpo suave; e o desaparecimento invade a sombra porque também as cores se disfarçam à chuva e o meu ego adormece contigo.
Pára o silêncio com a mão que embala os traços. Paras tu. Paramos nós. Para que o tempo se descubra e se abra, para que as letras se fundam em âmagos, para que a música retorne intacta.
sexta-feira, 11 de Julho de 2008
Dedilho seda no escorrega da noite.
Aconteceu Aconteceu a tristeza arrumada no trilho
E quem disse
quem disse que a água evapora os espaços
negros?
Mexo os dedos rasos
dor pela saliva no teu barco
Os lemes navegam no mastro
quebrado, Segues longe
longe perdido longe
O toque floresce
do rasgo chamando a redenção:
não te devo arrependimentos de sobras
laços que fomos quebrando
indisposições de ouvidos
do prato que quisemos lavar
a partir o caminho que se negou a consumir
Salta e dança e salta e vira o teu rosto para o meu
e delicia a maré com as ondas
navegador do meu pó revolto
caixão que me escolhe por branco
e me tem e me é.
A seca desdobra-se na descida
corpo vazio
O vento pega na vida
fecha a liberdade num nódulo esguio
repete o gene
mata: constrói as harpas à troca do frio.
Não sei escolher a salubridade pela voz
amarrotar a pele sem os teus poros
E galopo pela gruta acima
calcorreando as verdades
tontices
que se fundem para se amar
Está abafado
aqui no cume que aquece a ausência
O barco voa sem ti
na imagem e nos escombros
lindo revólver que por dentro escondi
Mato-me tantas vezes
e tantas vezes renasço
sonho-me tão pouco
e tão pouco me acho.
Não és tu o segredo do que ofereço
não és tu a parte da parte que me cobre
não somos nós
não somos nós
A morte vira-nos as costas
senta-se por cima das ondas
e leva a cauda ao fundo.
Onde vais?
Nessa jangada de madeira que lancei ao mar?
Nesse mar que trago na mão e que beijo?
Ou
Ou por tão simples destreza de ser
As folhas são os poemas que te fazem nascer?
quinta-feira, 15 de Maio de 2008
Limpeza. Pureza. Recomeço. Branco. Conforto individual. Escolha pessoal. Violinos. Um piano. Uma voz. Respirar. Sentir. Crescer. Partir para regressar. Regressar ao mesmo sítio. Encontrar as mesmas coisas. As coisas que deixámos. Abrir a porta e olhar. Poisar as malas e sentir. Sentir o nosso espaço em nós. Nós: na certeza. Nós: nós atados sem lágrimas; nós desatados pela cumplicidade das nossas mãos. Nós: eu e tu a perdurar nos dias. Nós: juntos sem o limbo do medo. Nós e os sorrisos. Nós e a paz. Nós e a vida. Os ombros sem peso. As palavras sem letras. As letras que são quatro: amor. Amor. Amor. Amor. Amor.
segunda-feira, 21 de Abril de 2008
Por momentos imaginou beijá-lo. Olhou para os lábios com especial atenção: os contornos, a textura, a forma como se mantinham intactos à espera da boca certa.
Distraído, passava a língua no pedaço superior: pedaço: pedaço de desejo. Os dois homens conversavam e ela imaginava esse encontro. Lá: no pedaço.
É frequente imaginar-se a beijar alguém. Gostava de ser uma fada de beijos para poder poisar de boca em boca, sem ter que explicar ou ser provocadora de outras quaisquer sensações. Não há nenhum tipo de excitação sexual perversa nisso. É o poder da sensualidade no toque; é o impacto de uma primeira sensação; é o respirar acelerado no momento da passagem sussurrada; é sentir com exactidão, num único segundo, toda a sensibilidade do arrepio humano. Gosta da ideia dessa beleza quase virgem que poderia oferecer se fosse transparente e pudesse beijar tudo e todos os que deseja.
O diálogo. Dois homens. E ela. Naquele instante só ela nos lábios: a fada dos beijos.
Mas tão depressa a ideia a acolhe e ela se perde, como tudo se dissipa no encalhe da realidade. Uma realidade muito simples: não o pode fazer. As escolhas são isso mesmo – castrações do ímpeto humano.
- Adeus, Gil. Até uma próxima.
- Adeus.
- Adeus Fada, foi um prazer beijá-la. Volte sempre. Sempre.
terça-feira, 15 de Abril de 2008
Olhar-me. Ver-me sem pestanejar. Gosto? Do que vejo no branco. O resto é acessório; é empecilho; é imagem.
Olhar. E descobrir o porquê. E saber que a casa me espera. Gosto? Do que abraço à frente. O resto é ilusório; é frivolidades; é imagem.
Ver. E sentir no seio um aperto. E querer que me abraces na viagem em que nos vamos perder. Gosto? Dos sorrisos de boca cerrada. O resto é o sufoco que me retira o ar; é impossibilidade de vida; é imagem.
Estar cansada é pouco.
Olhar-te. Ver que algo está errado. Saber que negas alguma coisa ou alguém. Gosto? Gosto-te. O resto é paisagem; é cor; é retrato.
Ver-te. E deixar-te só na distância. E afugentar os meus medos com a tua solidão. Gosto? Gosto-te. O resto é passeio; é voz; é retrato.
Estar cansada é pouco.
Abocanhar. Querer o mundo num só trago. Fechar os olhos e viver do sumo interior. Pernoitar nos riscos que largas ao toque das cordas. E saber que amo a complementaridade das palavras que não dizemos, das vozes que calámos por ser tão doce a entrega pelo respirar.
Olhar-me. E ver-me como metade de um rosto que é teu. Ver-me. E arrancar do peito o coração que palpita para te dizer: é teu; leva-o. E depois poder descansar, por fim, até que a luz se apague e os monstros me construam o leito onde repousarei ao abrigo do teu corpo quente.